País tem pouca folga para crescer sem pressões

 

País tem pouca folga para crescer sem pressões

 

  A recuperação da atividade em curso ainda é moderada, mas hoje há menos folga no mercado de trabalho e até mesmo na indústria do que na virada do primeiro para o segundo trimestre de 2009, quando a economia começou a se levantar do tombo que se seguiu à quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. A taxa de desemprego está na casa de 5,5%, bem abaixo dos 8,4% vigentes em março de 2009, na série com ajuste sazonal da LCA Consultores. Na indústria de transformação, o nível de utilização de capacidade instalada atingiu 84% em agosto, bastante acima dos quase 78% registrados no fim do primeiro trimestre de 2009, segundo números livres de influências sazonais da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Por enquanto, a expectativa dominante é de uma aceleração sem exageros do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos trimestres, mas um eventual avanço mais rápido pode reduzir ainda mais uma taxa de desemprego já baixa e elevar mais os salários, gerando pressões inflacionárias. Coordenadora técnica do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, Silvia Matos vê como preocupante para os índices de preços “a baixa ociosidade dos fatores de produção”, especialmente do mercado de trabalho, no momento em que a economia começa a reagir. A desocupação anda nas mínimas históricas e o país está em pleno emprego, ou próximo disso.


Para ela, mesmo se a ocupação não voltar a crescer com muita força, o fato de o desemprego já estar muito baixo pode ampliar as pressões nada desprezíveis sobre os preços de serviços, que acumulam alta próxima de 8% nos 12 meses até julho. Grupo formado por itens como aluguel, mensalidades escolares, empregado doméstico, conserto de automóvel e cabeleireiro, os preços de serviços são muito influenciados pelo aquecimento do mercado de trabalho.

“A inflação ainda segue bastante alta”, diz Silvia, ressaltando a resistência dos preços mesmo com a atividade econômica muito fraca desde o terceiro trimestre de 2011. Nos 12 meses até julho, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ainda sobe 5,2%, acima do centro da meta, de 4,5%, com os serviços avançando 7,9% no período. Nos 12 meses até março de 2009, esses preços subiam 6,8%, mas o grupo então não incluía alimentação fora do domicílio e nem passagens aéreas. O IPCA “cheio” estava em 5,6% naquele momento, nessa base de comparação. Silvia estima que o IPCA fechará 2012 em 5,2%, atingindo 5,5% ou mais em 2013.

Para o economista-chefe para a América Latina do BNP Paribas, Marcelo Carvalho, a inflação de 2013 pode até superar o teto da meta, de 6,5%, fechando o ano que vem em 6,7%. Em relatório, ele aponta entre as suas maiores preocupações a inflação de serviços “teimosamente alta”, num quadro de salários crescentes e desemprego nas mínimas.

Já o economista Carlos Eduardo Gonçalves, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), diz que o mercado de trabalho pode de fato ficar um pouco mais aquecido com a retomada e afetar a inflação de serviços, mas observa que o salário mínimo em 2013 vai subir menos do que neste ano. Ele lembra que o piso salarial é muito importante para definir os preços de vários serviços – como empregado doméstico -, além de ter influência sobre outros salários na economia.

Neste ano, a alta do salário mínimo foi de pouco mais de 14%, por causa da regra de correção pela inflação em 12 meses mais a variação do PIB de dois anos antes. Como o PIB do ano passado cresceu 2,7%, bem menos que os 7,5% de 2010, a alta será bem mais modesta no ano que vem, também porque a inflação de 2012 será menor que a do ano passado.

Gonçalves também nota que o PIB ficou muito enfraquecido por um ano, com crescimento pífio do terceiro trimestre de 2011 ao segundo trimestre deste ano. Nesse cenário, a folga de recursos na economia tende a levar algum tempo até se esgotar.

A folga de recursos também não é significativa na indústria, nota Silvia, citando os números da sondagem da FGV. Mesmo com o setor sofrendo bastante desde o segundo trimestre do ano passado, o nível de utilização de capacidade instalada caiu pouco. Os 84% de agosto estão até ligeiramente acima da média dos últimos cinco anos, de 83,7%.

A situação no segmento, porém, não deve ser uma fonte de grande preocupações inflacionárias, porque a indústria enfrenta dificuldades para retomar um ritmo razoável de expansão, dados os problemas de competitividade. O câmbio menos valorizado, as desonerações tributárias para vários setores e a perspectiva de redução do custo de energia elétrica devem ajudar as empresas do segmento daqui para frente, mas não se espera um crescimento dos mais expressivos. Os analistas ouvidos semanalmente pelo BC estimam um recuo de 1,55% da produção industrial neste ano e um avanço de 4,5% no ano que vem.

Gonçalves lembra que a demanda externa não deve ajudar a indústria, pelo contrário. A Argentina, o maior comprador de produtos manufaturados do Brasil, tem um ano muito fraco em termos de crescimento, e impôs barreiras que dificultam a entrada de produtos brasileiros no país.

O economista-chefe da corretora PlannerProsper, Eduardo Velho, acredita que o cenário externo vai impedir uma alta mais forte dos preços, contrabalançando em alguma medida as pressões que a demanda interna mais aquecida pode exercer sobre a inflação. Para ele, a situação na Europa continua muito complicada, e uma saída da Grécia da zona do euro é bastante provável. Se isso ocorrer, haverá tensão nos mercados e a recessão europeia pode se aprofundar, ainda que a união monetária sem os gregos já seja vista como uma possibilidade concreta há bastante tempo. Ele espera um IPCA de 4,8% neste ano e de 5,2% em 2013.

Gonçalves também considera que o cenário externo continua muito difícil, como ficou claro com a recente safra de indicadores econômicos europeus e chineses, apontando para um desempenho econômico bastante fraco. É algo a limitar o crescimento global, afetando o Brasil. Para ele, a inflação deve ficar na casa de 5% neste ano, podendo ficar mais próxima de 6% em 2013.

 

Crescimento depende de aumento de eficiência das empresas, diz Kupfer

Por Sergio Leo | De Brasília

O processo de crescimento do Brasil, baseado no consumo, será abortado caso as empresas não consigam se expandir reduzindo custos de produção e se o governo não mantiver baixa a inflação no país. A avaliação é do economista David Kupfer, assessor do BNDES, que participou ontem do Congresso Internacional Brasil Competitivo, em Brasília. O evento teve participação de autoridades como a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e, como convidado especial o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Representando o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, Kupfer comentou que o atual ciclo de crescimento da economia, baseado no estímulo ao consumo de massa, tem condições de ser “duradouro”, mas as empresas têm de investir na melhoria da eficiência, da produção e das etapas de planejamento de produto, assim como nas relações com o mercado. “O imperativo da produtividade está colocado na mesa mais que em períodos anteriores”, disse.

“Se o processo de expansão da produção industrial se der com custos crescentes, vai abortar o processo de crescimento, porque a população consumidora não tem condições de arcar com esse custo”, disse Kupfer. “A capacidade de transferir preço para o produto, hoje, no Brasil, é muito baixa, daí a intolerância com a inflação”, comentou. “Temos de pensar a expansão da produção com custos decrescentes, o contrário significará perda de rentabilidade, perda de crescimento, esvaziamento do ciclo dinâmico que conseguimos.”

Kupfer recomendou aos empresários atenção às etapas de pré-produção e pós-produção, com aumento de eficiência no relacionamento com os clientes e no planejamento. Ele enumerou os instrumentos de apoio do BNDES e admitiu que o suporte à inovação pode merecer um esforço adicional do governo. As exigências dos financiamentos oficiais em matéria de inadimplência e risco para investimentos podem estar em desacordo com as necessidades desse tipo de investimento, reconheceu.

A necessidade de investir na melhoria da educação foi um consenso entre os palestrantes do encontro. Blair fez um apelo para que se deixem de lado as disputas ideológicas em favor de esforços práticos pela melhoria de competitividade. As mudanças demográficas obrigarão países como o Brasil a fazer reformas difíceis, como a trabalhista e a da Previdência, afirmou o ex-primeiro ministro britânico.

Fonte: Valor Econômico

Saiba como e quais as vantagens
de se associar ao Sescon MG



    * campos obrigatórios